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Penedo já teve fósseis gigantes? O que os documentos de 1855 revelam

há 10 minutos
4 min de leitura

Por Fabrício Vasconcelos — Turismólogo


Mandíbula de mastodonte encontrada em Alagoas
Mandíbula de mastodonte encontrada em Alagoas. Foto: Universidade Federal de Alagoas.

Penedo é conhecida por suas igrejas, casarões, ruas históricas e pela relação com o Rio São Francisco. Mas existe uma história muito menos conhecida: documentos do século XIX relacionam Penedo a descobertas de fósseis de grandes animais extintos.


Uma anotação de 1855 chama atenção:


“Ossos fósseis — Penedo, AL.”


A pergunta é inevitável: Penedo já teve fósseis gigantes?


A resposta exige um pouco de cuidado, mas a história é surpreendente.


Uma descoberta registrada em 1855


Em 1855, documentos relacionados ao estudo de fósseis em Alagoas registraram materiais associados a Penedo e à atuação de José Vieira Rodrigues de Carvalho, então juiz da antiga Comarca de Penedo.


Carvalho participou de investigações e escavações de ossos fósseis na região do Rio São Francisco. A documentação revela que ele chegou a encaminhar informações às autoridades da província.


E existe um detalhe curioso: o documento enviado por Carvalho era acompanhado de uma estampa representando os ossos que já haviam sido retirados das escavações.


Ou seja, não eram apenas relatos escritos. Havia também uma tentativa de registrar visualmente aquilo que estava sendo encontrado.


E onde esses fósseis foram encontrados?


É aqui que a história fica ainda mais interessante.

Os documentos mencionam Tanque da Aldeia, também chamado de Poço Grande, como local relacionado às escavações.


Mas não podemos simplesmente afirmar que esse grande depósito de fósseis ficava dentro dos limites atuais de Penedo.


A antiga Comarca de Penedo era muito maior do que o município atual. Além disso, um relatório oficial de 1855 situou um grande depósito de ossos fósseis nas margens do Rio São Francisco, nas proximidades da antiga Vila de Pão d'Assúcar.


Por isso, Penedo aparece nessa história principalmente por sua importância administrativa e pela atuação do juiz da comarca, enquanto Pão de Açúcar surge como uma importante referência geográfica para o depósito de fósseis.


Essa diferença é importante para não transformar uma documentação histórica complexa em uma afirmação que os documentos não permitem fazer.


85 caixas de ossos


E talvez esse seja o dado mais impressionante.

Os documentos de 1855 registram uma remessa de 85 caixas ou caixões contendo ossos fósseis.

Não se tratava, portanto, de uma descoberta isolada de um único osso.


Uma quantidade expressiva de material foi retirada, acondicionada e encaminhada para estudo, entrando no circuito científico que envolvia instituições como o Museu Nacional, no Rio de Janeiro.


Os pesquisadores daquele período tentavam descobrir a que animais pertenciam aqueles ossos enormes.

Entre as identificações históricas aparecem referências a mastodontes, além de outros grandes mamíferos extintos.


Hoje sabemos que esses animais fazem parte da chamada megafauna pleistocênica.

E não, não eram dinossauros.


Eram grandes mamíferos que viveram milhares de anos atrás, incluindo antigos proboscídeos, grupo que também inclui os elefantes atuais.


O que Penedo tem a ver com essa história?


Cidade de Penedo, em Alagoas.
Cidade de Penedo, em Alagoas.

Muito.

O registro “Ossos fósseis — Penedo, AL — 1855” mostra que o nome de Penedo aparece diretamente na documentação relacionada a esses materiais.


Além disso, o juiz da Comarca de Penedo, José Vieira Rodrigues de Carvalho, participou das investigações.

Mas a história não deve ser resumida como “um mastodonte foi encontrado em Penedo”.


A documentação disponível aponta para algo mais interessante: Penedo fazia parte de uma rede de circulação de informações, pessoas, materiais e descobertas científicas que conectava o Baixo São Francisco ao Brasil Imperial.


E isso revela uma faceta pouco conhecida da história da cidade.


Penedo não era apenas um importante núcleo comercial e político às margens do São Francisco.


Também aparece em uma história relacionada à ciência e às descobertas paleontológicas do século XIX.


Uma história que ainda pode revelar mais


Quase dois séculos depois, esses documentos continuam levantando perguntas.


Onde exatamente ficavam os antigos pontos de escavação?


Que parte dos fósseis ainda pode ser identificada em coleções científicas?


E quais outros documentos sobre essas descobertas ainda estão espalhados por arquivos e bibliotecas?

É justamente esse tipo de pergunta que torna a pesquisa histórica tão interessante.


Uma pequena anotação como “Ossos fósseis — Penedo, AL” pode abrir uma janela para uma história muito maior sobre o Rio São Francisco, a ciência no Brasil Imperial e os animais gigantes que habitaram essa região.


Fontes


A pesquisa utiliza documentos históricos da Hemeroteca Digital Brasileira, Biblioteca Nacional, publicações científicas do século XIX e estudos acadêmicos sobre as coleções paleontológicas brasileiras, Louis Jacques Brunet e José Vieira Rodrigues de Carvalho.


Entre as referências consultadas estão documentos de 1855 relacionados às escavações de fósseis no Baixo São Francisco e estudos posteriores sobre a megafauna de Alagoas.


Este artigo distingue os registros documentais das interpretações posteriores e evita atribuir automaticamente ao atual município de Penedo descobertas que podem estar relacionadas à antiga Comarca de Penedo.


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