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O curioso presente que Dom Pedro II recebeu em Penedo: um urubu-rei e quatro piranhas

há 11 minutos
4 min de leitura

Por Fabrício Vasconcelos — Turismólogo


Dom Pedro II durante sua viagem pelo Baixo São Francisco em 1859
Retrato de Dom Pedro II, 1859 — Museu Histórico Nacional

Quando Dom Pedro II chegou a Penedo, em outubro de 1859, a cidade preparou uma grande recepção para o Imperador.


Houve cerimônias, autoridades, música, igrejas, visitas e uma multidão acompanhando sua passagem.


Mas foi no retorno da viagem a Paulo Afonso que ele recebeu alguns presentes bastante diferentes do que esperaríamos de uma recepção imperial.


Entre eles estavam um urubu-rei de tamanho extraordinário e quatro piranhas.


E isso está registrado em um relato publicado no século XIX.


Um presente bem diferente


Desenho de Penedo feito por Dom Pedro II durante sua viagem de 1859
Vista da villa do Penedo do lado da Villa Nova — 15 de outubro de 1859

Dom Pedro II havia deixado Penedo para seguir pelo Rio São Francisco em direção à Cachoeira de Paulo Afonso.


Depois de conhecer a região e retornar pelo mesmo caminho, chegou novamente a Penedo em 24 de outubro de 1859.


A recepção voltou a ser marcada pelo entusiasmo da população.


O relato da viagem conta que, depois de desembarcar e receber as homenagens, o Imperador foi até o Paço, onde cumprimentou as pessoas que se apresentaram.


Foi então que apareceram alguns presentes.

Entre eles estava:

um urubu-rei de “collossal grandeza” e quatro piranhas preparadas em espírito de vinho.


As piranhas foram apresentadas em nome do doutor Henrique Rilkert, por intermédio do doutor Mornay.


Por que piranhas?

Piranha, peixe encontrado no ambiente do Rio São Francisco
As piranhas estavam entre os presentes oferecidos a Dom Pedro II durante sua passagem por Penedo, em 1859.


Hoje pode parecer estranho imaginar um Imperador recebendo peixes conservados como presente.


Mas existe uma explicação para isso.


Dom Pedro II tinha grande interesse pela natureza e costumava registrar em seus diários informações sobre animais, plantas, paisagens e características das regiões que visitava.


Durante a própria viagem pelo São Francisco, ele observou atentamente a fauna do rio.


Em Penedo, por exemplo, registrou ter visto uma piranha e chegou a fazer uma cópia do peixe, descrevendo seus dentes e suas escamas.


Portanto, aqueles peixes não eram apenas uma lembrança curiosa.


Eles também dialogavam com o interesse do próprio Imperador pela observação científica da natureza.


E o urubu-rei?


Urubu-rei, espécie de ave oferecida a Dom Pedro II em Penedo em 1859
Urubu-rei, espécie de ave oferecida a Dom Pedro II em Penedo em 1859 / Foto: Renato Augusto Martins / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

O outro presente talvez fosse ainda mais curioso.


O urubu-rei (Sarcoramphus papa) é uma das maiores aves necrófagas das Américas e possui uma aparência bastante característica, com cabeça colorida e plumagem branca e preta.


No século XIX, oferecer um exemplar dessa ave a um visitante ilustre também poderia ter um significado ligado à fauna da região.


O relato não diz, entretanto, exatamente onde o animal foi obtido ou o que aconteceu com ele depois.


Essa é uma daquelas pequenas perguntas que os documentos históricos deixam pelo caminho.


Penedo e a viagem de Dom Pedro II


A passagem de Dom Pedro II por Penedo não foi um episódio isolado.


A cidade fazia parte de uma viagem maior pelo Baixo São Francisco, realizada em 1859, quando o Imperador percorreu diversas localidades até chegar à Cachoeira de Paulo Afonso.


Em Penedo, ele visitou igrejas, estabelecimentos, repartições e escolas, observou a movimentação do porto e registrou suas impressões sobre a cidade.

Uma delas ficou famosa:


“O local é muito bonito e creio que devera estar aqui a capital da província.”


O episódio dos presentes revela outra dimensão dessa viagem.


Além das cerimônias oficiais e dos discursos, havia também uma relação curiosa entre o visitante e aquilo que encontrava na natureza do São Francisco.


E talvez seja justamente esse o detalhe que torna a história tão interessante.


Em uma cidade às margens do Velho Chico, o Imperador recebeu como lembrança um urubu-rei e quatro piranhas.


Não é exatamente o tipo de presente que aparece nos livros de história.


Mas está registrado nos documentos da viagem.


Uma pequena história escondida nos documentos de Penedo


A visita de Dom Pedro II deixou muitas marcas na história de Penedo.


O prédio onde ficou hospedado ainda existe e hoje abriga o Museu do Paço Imperial e o Memorial Raimundo Marinho.


Penedo-AL
Centro histórico de Penedo-AL / o prédio amarelo é o Museu do Paço Imperial

Mas, histórias como a do urubu-rei e das piranhas mostram que existe muito mais para descobrir quando voltamos aos documentos da época.


Às vezes, uma passagem de poucas linhas é suficiente para revelar um detalhe completamente inesperado sobre a história de uma cidade.


E essa é uma das razões pelas quais vale a pena olhar para Penedo além dos seus casarões e igrejas.


O que mais será que os documentos antigos ainda guardam?


Fonte


S. de P. Memórias da viagem de Suas Majestades Imperiais à província da Bahia, Typographia Nacional, Rio de Janeiro, 1867. O relato registra a chegada de Dom Pedro II a Penedo e menciona os presentes oferecidos ao Imperador, entre eles o urubu-rei e as quatro piranhas.


Também foram consultados registros do Museu Imperial sobre os diários de viagem de Dom Pedro II e estudos históricos sobre sua passagem pelo Baixo São Francisco.


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